Não
sei quantos pensamentos ocorrem neste momento, dentro de cada pensamento. Nem me
recordo quantos deles me torturam, se é por um corpo cansado ou pela desesperança
quanto ao fim do dinheiro. Carteiras e o trabalho ocupam a mesma mesa que
minhas canetas, a boina xadrez, tantas vezes perdida, e o primeiro maço de
cigarros. A cara realmente é diferente,
e eu sempre tenho o que escrever, só que pouco mais ou menos me lembro. Os
olhos mudaram; e um painel feito na parede do quarto ainda guarda sonhos que eu
quase não lembro.
Que
merda, eu nem me lembrava direito as primeiras maneiras que me fizeram
escrever. As certezas que se pode ter. Quantas são? Pendurado na parede, tem um
violão quase novo que há muito fora levado tantas vezes ao altíssimo. Hoje o
violão não voa tão alto, mudou até de parede. Está ali, ao lado do painel de
sonhos; seu antigo suporte, bem próximo ao modernismo do mural, agora sustenta
um motor. O que pode significar um motor pendurado em meio a um painel de
sonhos, eu também não sei. Sei tão pouco, às vezes acho tanto, mas compreendo
as mudanças que se passaram nos quartos que dormi, dentro do meu peito, ou nos
pensamentos.
Outro
dia terminei um conto me perguntado se era ali, naquele ponto final, que o
texto ou tudo acabava. Eu ainda nem sei a resposta, ou se encontrei o tal ponto
final. Espero demorar em poder encontrar todos eles, respostas e finais. Por
mais que o banco seja outro, fora da lugubridade do cimento frio, por mais que
seja uma cadeira dentro do quarto, dos sonhos, fechado; o barulho das motos e
motores, vozes e portões, sempre voltam. Como o ponto final dos textos
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Salvador Dalí - Inaugural Goose Flesh 1928 |