Poderia ser um domingo ensolarado, chato feito tantos
outros, assistindo televisão em tardes falseadamente legais. Não tem sol, e nem
por isso há apenas tristeza em cada carro que passa nem na história que ameaça
surgir na avenida. Dias frios parecem sempre os mesmos, na memória. Manhãs
cinzas muitas vezes conflitam o sol do entardecer, sentado num banco em
qualquer calçada, quando meus olhos fecham, certas vezes não percebo se meu
corpo acorda ou dorme. Nem sei se acordo de um sonho, às vezes penso que,
dependendo do quanto se dorme, o dia tende a parecer ser o mesmo o tempo todo.
Sentado e pensando, resta o hábito dos outros dias da
semana que, com o tempo, também contrafazem em serem os mesmos. Os cigarros
parecem ser os mesmos, menos quando a memória busca ao longe das primeiras vezes,
os pigarros sempre se fizeram prosaicos. Acho que alguém passou e disse: - Ei, parça,
arruma um cigarro aí, na moral. A memória com suas graças às vezes me faz
juntar pessoas ou causos, que ainda não sei em qual livro ou verdade seriam
reais. Tirei um maço de cigarros do bolso da jaqueta, a luva de lã faz o maço
quase escorregar. E já nem lembro se isso foi de dia ou a noite, na memória,
outro dia desses, pedi um cigarro.
Sentado uma tarde passa e as maritacas não gritam, o frio
lhes corta as asas. O vento frio talvez tenha cortado meus pensamentos, ou o
sono. Dormir tem sido algo tão próximo que muitas vezes já nem lembro seu
egoísmo. Sentado no banco abri os olhos e não me lembro se eu dormira a
noite ou as tardes do tempo. Sei que
toda vez quando sento no banco de cimento meus olhos, quase que em vão, buscam
as pichações escritas no muro do outro lado da avenida.
A pichação do muro fora primeiramente escrita ali, depois
minha percepção a levou para os rascunhos de um celular velho. Hoje nem o muro
existe para guardar os traços de tinta, disseram que logo chegaria o
empreendimento, e o rabo dos habitadores logo estaria cheio. Pensaram que seria
de dinheiro, nada feito. Tapumes encobrem os muros baixos de um campo onde meus
pensamentos afluíam; sob eles, hoje quase vejo, apenas as luzes a guardar a
rotatória que já nem lembro se é sagrada, onde a rua não se pode convergir. Derrubaram
os muros para criar o empreendimento, que nada só taparam foram os matos de
dentro, edificaram um escritoriozinho em pré-moldado que tentara se fazer
imponente. Lá dentro talvez fosse mais frio que qualquer casa de madeira ou
banco de cimento, mas logo o dinheiro chega e todo mundo fica cheio.
Anteriormente talvez fosse a pichação, vi de perto para
poder falar, hoje talvez sejam os vasos de plantas que tentam guardar os textos
e poesias que correm nos carros da avenida. Sentei e escrevi, melhor, pensei
pra viver e dar forma. Quem sabe, talvez, conseguir significar os pensamentos
levados nos vultos dos carros; o cigarro também mudou.
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Three Sphinxes of Bikini - Salvador Dalí (1947) |