- Onde é o lugar que você está?
- É um hotel, no centro. Chama Indaiá, eu acho. Sua voz...
- Eu sei onde é. – interrompe-me.
- Tem uma praça a alguns quarteirões do seu hotel, não tem?
- Sim, sim. – ela também pensou na praça. A que horas?
- Eu senti falta de ouvir sua voz...
- Depois nos falamos. – desligou.
Meu coração bateu mais rápido que o sinal da ligação caída. Olhei para a mesa, apoiei o cigarro no cinzeiro de vidro, alguns pedaços de papel, uns com duas, ou três palavras, outros eram folhas preenchidas, cobriam a mesa. Encontro, aleatoriamente, uma. Desfaço-me do telefone.
Ligações me faziam lembrar quando ela falou, mesmo que de mentira, perto do meu ouvido. Fazia tempo que não a via. Em minha reminiscência apenas detalhes e recortes, tornando a minha consciência.
Ainda estava cedo, mas não suportava mais aqueles papéis, nem o quarto. Calcei os sapatos e sai. Caminhei errante para que o tempo passasse um pouco mais rápido. Caminhei olhando o céu, dirigia-me brincando com a lua. Ela sorria, e se escondia. Nos prédios, ou nas árvores... Por vezes nas minhas costas.
Chegava até a cair em esquecimento, e eu, como um cego de andar reboto, procurava manter o pouco que restava do som da sua voz como guia para o encontro.
Os bancos parecem ser sempre os mesmos, feitos do mesmo cimento, lúgubre e frio. Sento-me, aquele lugar tinha uma vista bastante privilegiada sobre quem ia ou vinha. É aqui que espero.
Eu a vi chegando por todas as direções, podia estar interpretando. Seria o mendigo, ou a velha? Eu não gosto de esperar, não gosto... Um vento frio soava no meu ouvido esquerdo. Respirei fundo e, de olhos fechados, abaixo a cabeça.
De olhos fechados esqueci seu rosto. O vento entrava pelos meus ouvidos, e, lentamente, condensava meu ânimo. Não lembrava o rosto, nem a voz, apenas queria você ali. O que nos leva a andar por praças inóspitas...
Abro os olhos e te encontro, sorrindo, frente ao banco. Eu tinha certeza que não conseguiria falar nada quando isso acontecesse, não falei. Ela bate na minha cabeça e, novamente, sorri:
- Não tem vergonha de dormir na praça não?
- Quando é pra sonhar com você, não. – eu não conseguia perder aquele sorriso.
Seus preclaros olhos transmitiam uma viva impressão de deleite e admiração, em mim. Eu demoraria para saber, que esse meu sorriso, aos poucos amarelado, dali pra frente, só alcançaria o tom exato, quase que musical, enquanto a tivesse por perto, como em uma conseqüência etérea; precedido por minha boca que, tranqüila e lentamente, acompanhava suas palavras e sorrisos. Tanta coisa passa nessa rua, desde o tempo, até as fases da lua. Mas, tudo inda era silêncio. Merda, não prestei atenção no que ela disse.
- E, eu preciso ir. Está tarde, você devia ter me avisado antes de vir.
- Eu vim de súbito, de saudade.
Ela também perdia os olhos na lua. Beijei seu rosto, segurei suas mãos e trocamos um sorriso correspondido de parte a parte. Comunicamos nossas bocas e, novamente, a atmosfera do tempo insurgi, e ultrapassa, a si mesma.
Para aquele beijo, toda poesia seria pouca. Beijava-lhe os olhos, ou enredava os dedos em seu cabelo, e às vezes perdia o que estava me dizendo.
- Eu... Eu, tenho que ir. – disse. Quero ficar, quero mesmo. Mas, me matam se eu não voltar logo.
Tiro dois, do bolso da camisa.
Estava com raiva, não queria que fosse. Mas, aquela voz... Se pudesse, eu a gravaria e ficaria a ouvir; passaria horas e horas. Apoio o cigarro em sua boca, ela acende e diz:
- Tenho sonhado com você. Tenho-te, ainda, nas minhas fantasias e devaneios.
- E, quando acordo, mesmo com a memória dos sonhos partindo, você parece que fica.
- É a primeira coisa que penso quando acordo. – dissemos juntos.
- Toma. – diz entregando-me o cigarro quase que com brutalidade. Eu tenho que ir.
Me beija rápido, viras as costas e vai. Os carros voltam a fazer barulho, incomodam. Com o cigarro no fundo dos dedos, fumo quase que tapando a boca. E, você vai embora, lembrando os astros, preservando toda sua beleza longe e intangível.
Meu olho te acompanha; minha boca, ainda quente, não.
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Salvador Dalí - The Eye of Surrealist Time |