- Alô...
[silêncio]
Alô!
[silêncio]
Respira
fundo e, com o ar de quem mata como os deuses, bate telefone.
- Quem era?
- E, eu lá
sei?
- Desliga
esse negócio, volta, senta aqui comigo.
Com
um sorriso, que não era meu, esquece o telefone e caminha voltando para o sofá.
Eu queria estar ali e poder ver, para ao menos imaginar, que em meu ombro seus cabelos
castanhos encontrariam repouso naquele momento. Mas, não era. Imaginar outro
sofá, qualquer outro que fosse. Ah, imaginar um sofá em Paris; melhor, um banco
de praça. Na última vez que andei por aquelas ruas, que respirei aqueles ares
luminosos, com os olhos perdidos na lua, encontrei um banco de madeira. Antes desse
telefonema mudo, bem antes, eu já havia imaginado ou sonhado minha mão no seu
rosto, sonhar você caminhando ao meu lado nessas ruas de ladrilhos, esquecer de
seu rosto e ganhar suas mãos não me pareciam mais um sonho remoto. Dessa vez eu
ligo e falo, de verdade, eu vou falar desse sonho em que estou sentado num
banco, em qualquer um daqueles bancos parísios e, você, com a cabeça em meu ombro,
têm seus cabelos aconchegados perto do meu rosto. Com as pernas dobradas
confortavelmente sobre a madeira, você segura uma flor e, com a graça de poder
ver o seu perfil, solta um sorriso que enche meu peito.
Que
merda, isso é sonho rapaz. Esquece isso, eu vou esquecer. Deixa quieto aquele
pote, tudo que tem ali dentro de moeda... Só esquece. Ai, caramba, eu não vou
deixar quieto não tem como oras. Não tem. Eu vou jogar esse pote no rio, é eu
vou jogar. Pra ir embora e pensar que passou; mas, eu não conseguiria, a
filosofia do rio não me deixaria esquecer. Não vou falar, merda... por que
arranha a garganta só de pensar em te convidar pra uma loucura dessa?
Na
penumbra criada pelo abajour, fico apenas sentado e o sono parece nem querer
chegar, tal qual o tempo, e, perdido, sem saber se estou num ou noutro, teu
sonho perfaz minha realidade. Com o corpo esparramado na poltrona, fecho os
olhos e pouco a pouco cada árvore, cada ladrilho de pedra juntam-se a
transfazer cada detalhe de uma praça que minha memória não conseguia
significar. Respiro fundo e, minha pele fica tremula eriçando meu ânimo como
quando você me faz pensar poesia na rua. Abro os olhos e, em realidade, cada
pedaço daquela praça lentamente vai surgindo em mim.
-
Olha que bonita, essa flor.
Nunca,
em nenhum sonho, havíamos nos falado; ficava apenas a imagem muda do vento
soprando ao nosso redor.
-
É linda. – sorrindo, eu não conseguiria dizer muito.
[silêncio]
Poder
ver, ouvir, sonhar... Quero sentir você dentro do meu abraço, sentir de perto
cada traço que faz seu rosto tão bonito. Eu não vou mais esperar.
Na
sala, interrompendo um beijo, o telefone toca novamente. Chama uma, duas vezes.
-
Espera eu vou atender, rapidinho. – levantando-se.
-
Para, fica aqui... – tentando voltar o beijo.
-
Se não for nada, eu desligo o telefone.
Dessa vez, meu
coração batia lento aos passos da ligação; que eu já considerava quase perdida.
Ia desligar...
- Alô...
[silêncio]
Alô!
[silêncio]
- Oi...
- Alô?
- Sou eu...
- Eu sei –
interrompe, tentando esconder o sorriso vira as costas para o sofá.
- Você está
ocupada?
- Não, pode
falar.
- É que...
[silêncio]
- Fala... –
docemente.
- Faz uns
dias que queria te perguntar um negocio, mas, deixa quieto. Está tarde, não é coisa
de importância.
- Não tem
problema, pode falar...
- É
besta... Fo...
- Você vai
demorar pra desligar aí? – do sofá, interrompe a ligação.
Sem responder,
apenas meche as mãos pedindo silêncio.
- Desculpa,
não ouvi o que você disse.
- Não era
nada mesmo, só queria dizer que estou indo pro rio. – com medo, meu coração
batia descompassado.
- Certeza
que era só isso?
- Não...
- Então diz
logo, oras.
- Fo...
Foge comigo?
- Quê? Está
brincando? – Diz, rindo. Aquela risada enchia meu peito mais que a música.
- Não, não
estou...
[silêncio]
Foge... Escapa comigo? Vamos pra Paris...
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Salvador Dali - Winter and Summer Patient Lovers |